domingo, 23 de junho de 2013

internação compulsória:pra que(m) serve?



Ameaça à lapidação social em voga, a imagem dos que restam ‘brutos’ deve ser banida do espaço coletivo. É o tempo da política das incompatibilidades sociais, iniciada com a Lei Anti- Fumante de Serra e contemplada pelas Internações Compulsórias de Alkmin atualmente.

A política das incompatibilidades sociais associa ilogicamente um comportamento à um valor moral: assim fumantes são assassinos passivos e usuários de crack são violentos e vagabundos. Essa ilógicas apreciações são a base de preconceitos artificiais estrategicamente criados a fim de dividir o corpo social em grupos que ,entre si, tornam-se incompatíveis.

É imprescindível identificar a construção social destes males que, os governos e a ‘seduzida’ burguesia insistem em delegar ao espírito, ao caráter, à condições da ordem da moral, legitimando a classificação de indivíduos como bons e maus.

 Neste contexto político-moralista de caráter pessoal a internação compulsória representa ‘uma ação das pessoas boas que, 'apesar de tudo' preocupam-se e dedicam algum tempo à 'dar mais uma chance' às pessoas más e perdidas 'em nossa' sociedade’.

A internação a força se apresenta, então, como atitude caridosa :o que é péssimo porque a Saúde Pública esmorece em detrimento da compaixão Cristã.

 A origem do crack como tóxico advindo do 'refugo' da refinação da cocaína e seu preço inferior, inicialmente, circunscreveu seu uso às classes mais pobres, o que agregou bases significantes históricas de '(pré)conceitos' ao universo do crak.

É quase como: O refugo ao refugo (o refugo da droga ao refugo do social)!

Essa significação está de tal forma instituída que, independe de suas associações originárias: atualmente o crack é produzido da mesma basta básica de que advém a cocaína (não mais do refugo), a pedra de crack (unidade de venda-1) custa o mesmo que o papel de cocaína (idem 1) e o uso do crack não é mais exclusividade das classes pobres.

O interessante é que, a mídia ainda publica o uso do crack como restrito ao universo da pobreza, omitindo a verdadeira origem da atual necessidade de compartilhamento de informação e intervenção sobre o problema que é a multiplicação de usuários de crack em todas as classes sócio- econômicas.

Isto é o crack passa a ser um problema social quando atinge o secto normatizado e normativo da sociedade paulista, é o consumo de crack da burguesia que justifica o surgimento da contemporânea preocupação dos poderes públicos e da crescente divulgação midiática sobre a questão.

No entanto, o moralismo vigente não permite a divulgação do uso de crack na burguesia, porque admitir tal situação rompe com a antagonia (há tanto tempo cultivada) entre a dignidade civil burguesa e a anti- sociabilidade das camadas pobres da sociedade.

Outra consideração oriunda da disseminação do uso do crack nas mais variadas classes sociais é que, já não é possível identificar o sofrimento político e econômico, a condição de pobreza material e a  falta  de assistência social, como causas que dispõem o indivíduo ao crack.

Se a vulnerabilidade ao consumo do crack não se limita às condições sócio- econômicas do indivíduo, talvez as dimensões da subjetividade possam enriquecer esta reflexão: não a subjetividade do indivíduo, mas sim a subjetividade social que incide sobre os indivíduos.

Este é o ponto crucial para compreender a criação e contínua multiplicação da internação compulsória apresentada à sociedade como estratégia de saúde pública.

O crescente surgimento de ‘mini crackolândias’ nas cidades de médio e grande porte do Estado de São Paulo, é cada vez mais ‘incomodo’, justamente porque explicita: o descontrole da ordem, a incompetência do modelo de existência que obedecem os protocolos do bom cidadão e a existência da desistência social padrão.

Ora enquanto o crack limita-se às classes julgadas e condenadas à exclusão social, nada precisa ser feito, afinal a Política das incompatibilidades sociais foi assertiva e cada grupo habita seu espaço estrategicamente delimitado para que não haja ‘contágios’.

Mas, quando a burguesia está adoecendo porque é possível cruzar os muros divisores, o governo passa a ter um problema que exige uma ação.

A primeira intervenção ao crack, no início de 2012, foi um ‘imagético’ desmantelamento da crackolândia do Centro da cidade de São Paulo; essa foi a resposta governamental dada aos ‘pais’ (juízes, empresários, grandes nomes da burguesia paulistana) que ‘perderam’ seus filhos para as ‘ruas do crack’ e dos proprietários dos grandes hotéis, praticamente abandonados, da rua Guaianases que exigiram uma posição do governo diante de ‘tal calamidade’.

A crackolândia ocupava cerca de quatro quarteirões da Rua Guaianases, era uma concentração de usuários, traficantes, mercado negro e etc. A intervenção da polícia do governo do Estado limita-se a proibir o uso da rua dos hotéis, portanto as pessoas atravessaram a Avenida Rio Branco e ocupam – somente durante a noite- uma rua comercial. Durante o dia é proibido aglomerações com cinco ou mais pessoas. À vigilância cabe dividir grupinhos numerosos durante o dia e à noite uma Base Comunitária da Polícia Militar fica há duas ruas do movimento.

O Governo estadual e municipal (Alkmin e Kassab na época) ‘varreram a cracKolândia para debaixo do tapete’. A Política das incompatibilidades sociais prescinde da Política da Invisibilidade que, consiste em invisibilizar o que ‘é feio, ruim, fedido, sujo, pobre’.

E aqui encontramos então as reais razões da criação da Internação Compulsória. Ora ela, assim como os manicômios, os presídios, as rampas anti- mendigos , é filha da Política da Invisibilidade e neta da Política dos Sectos Sociais.

Poucos meses antes da Internação Compulsória ser efetiva na cidade de São Paulo, os policiais quando ‘enquadravam’ um grupinho de usuários de crack, diziam: É FIQUEM ESPERTOS , VOCÊS estão sabendo da internação né, falta só um mês, vocês vão todos ser pegos!!!

Não se sabe como se entra, nem onde se entra quando a Internação Compulsória te pega. Não se sabe quais os critérios de avaliação do paciente, muito menos divulgou-se o tratamento que será realizado... Mas, principalmente, NÃO SE SABE COMO E QUANDO SE SAI!

A burguesia da sociedade brasileira, especialmente a do sudoeste deste país,está cada vez mais vigilante e punitiva, é capaz de, não somente, manter estas INSTITUIÇÕES DO HORROR em que impera o ESTADO DE EXCESSÃO DE TODOS OS DIREITOS Humanos, Constitucionais e Universais, como também ovacioná-las, são as estruturas físicas do ‘sistema do castigo merecido àqueles que praticam a desordem’.

A política da Invisibilidade precisa de DEPÓSITOS DO QUE NÃO DEVE SER VISTO porque, afinal, não possui o dom da invisibilidade, e a Política das incompatibilidades sociais precisa de um crescente egoísmo, uma crueldade e um desdém crescendo no coração das pessoas porque elas são seus carrascos, delatores, carcereiros, vigias, juízes...

A INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA não é nada além disso, seu único objetivo real é INVISIBILIZAR ESTAS CENAS DRÁMATICAS DO CONSUMO DO CRACK QUE TANTO INCOMODAM A BURGUESIA PAULISTA, A ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA, A MORAL E A ORDEM SOCIAL.

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